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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A tristeza permitida




A TRISTEZA PERMITIDA

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Martha Medeiros

segunda-feira, 5 de agosto de 2013



“O caminho é este, tem pedra, tem sol, tem bandido, mocinho, tem você amando, tem você sozinho… 
É só escolher… ou vai, ou fica… Eu fui…"

Martha Medeiros

terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu à toa sou tua




Eu triste sou calada... Eu brava sou estúpida...Eu lúcida sou chata...
Eu gata sou esperta... Eu cega sou vidente... Eu carente sou insana...
Eu malandra sou fresca...Eu seca sou vazia,...Eu fria sou distante...
Eu quente sou oleosa... Eu prosa sou tantas... Eu santa sou gelada...
Eu salgada sou crua.. Eu pura sou tentada..Eu sentada sou alta...
Eu jovem sou donzela...Eu bela sou fútil...Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua.

Martha Medeiros



sexta-feira, 24 de maio de 2013

O que você diz.....


A boca, nem sempre sabe o que diz!






Os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. 
O que você diz - com todo o respeito - é apenas o que você diz.

((Martha Medeiros))

domingo, 6 de maio de 2012

Tudo é meu

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Eu definitivamente não consigo 
me desligar das pessoas. 
Todo mundo é meu pra sempre, 
mesmo que seja eu quem 
tenha ido embora. 

((Martha Medeiros))

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pés no chão

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Pés no chão- Martha Medeiros
Volta e meia me pego falando coisas em que nem eu mesma acredito.
Por exemplo, costumo dizer por aí que mantenho meus pés no chão,
que não sou de delirar, de procurar cabelo em ovo, essas coisas.
Pés no chão, pés no chão.
Sempre falo isso com um misto de orgulho e ao mesmo tempo de estranhamento.
O orgulho até entendo – pés no chão é uma metáfora para sensatez, lucidez.
O estranhamento eu compreendi recentemente, quando li uns versos do norueguês Tor Age Bringsvaerd, que descobri serem até manjados, mas que eu não conhecia:
quem mantém os dois pés no chão/não sai do lugar. Está aí o que me incomodava.
Desde então, fico me perguntando o que os meus dois pés no chão têm me trazido de bom. Trouxeram a consciência de que não sou melhor nem pior do que ninguém, que faço o que posso. Os pés no chão me fizeram reconhecer minhas limitações e a não criar expectativas mirabolantes em relação a nada. Me fizeram desenvolver um olho clínico para detectar exibicionistas, arrogantes e toda espécie de gente que “se acha”, e que me causam verdadeiro tédio.
É o que me trouxeram meus dois pés no chão, tanto o esquerdo quanto o direito.
O que eles podem me tirar é que me assusta.
Não tenho vocação para a permanência eterna, para nada eterno. Não mais. Tinha quando era uma menina e não fazia ideia de que estar em movimento não era sinônimo de indecisão, e sim de sabedoria. Para frente, para trás ou para os lados: não importa a direção, o que vale é a troca de paisagem. O ângulo novo. As coisas que a gente não enxergava antes, quando estava parado.
Ao tirar os dois pés do chão, permito que as certezas me abandonem e me concedo o direito ao mistério. Não fico mais tão segura de nada, e assim abro espaço no cérebro para diversas especulações – que me levarão aonde? Não sei.
O “não sei” pode, sem querer, nos apontar um caminho bem legítimo.
Tirando os pés do chão, volto a sonhar, eu que havia trocado sonhos por objetivos.
Já não sou criança para temer que essa “levitação” me faça cometer bobagens.
Vai ver é de bobagens mesmo que estou precisando.
Manter os pés no chão exige contração, concentração. Não é relaxante. Para sair da posição de sentido, preciso me desapegar, me desprender: será isso ruim? Não quero mais em mim uma postura militar, uma cabeça de sargento, ao menos não todo o tempo.
Preciso encontrar em mim a recruta também, o soldado que cumpre as regras, porém, debocha do general quando ele não está vendo.Vou manter meus pés no chão, porque delirar todo o tempo não é possível, não quando se tem responsabilidades adquiridas.
O orgulho da consciência ainda habita em mim. Mas ficar cravada no solo, para sempre, não dá. Como diz o norueguês, não se vai a lugar algum, então, que eu me desloque ao menos em pensamentos, em vertigens mentais, em piruetas audaciosas que me façam pousar alguns metros adiante, lá onde se consegue olhar para trás e descobrir o bem que fizemos ao mudar.